domingo, 10 de junho de 2012

Crime Passional


O caso do assassinato e esquartejamento do executivo Marcos Kitano Matsunaga por sua mulher, Elize (na reprodução ao lado, deixando o prédio com malas), já tem lugar garantido na galeria dos mais chocantes crimes passionais da crônica policial brasileira.
Registrado pela primeira vez em nosso idioma em 1728, o adjetivo passional veio do latim passionalis e significa, como se sabe, relativo à – ou provocado pela – paixão amorosa. Ninguém ignora que esta é capaz de, aliada à frustração e ao ciúme, arrastar pessoas de estrutura emocional menos sólida a atos de violência (mais sobre isso aqui).
É claro que o crime – passional ou não – é por definição a exceção e não a regra. No entanto, um passeio pela história da palavra paixão comprova que ela sempre esteve ligada ao campo semântico da violência e da dor, mesmo quando ainda não nomeava o arrebatamento amoroso.
Há pouco mais de um ano, a propósito da Semana Santa, escrevi aqui que, “para começo de conversa, é preciso compreender que a paixão foi suplício físico muitos séculos antes de ser arrebatamento afetivo ou sexual”. A coluna prosseguia assim:
Do latim tardio passio, passionis, a palavra surgiu com o sentido de padecimento atroz, em especial o de Jesus Cristo e o dos primeiros mártires da Igreja Católica. Ligada ao radical pati, é parente de palavras como passivo e paciente, e deixa entrever o apaixonado como aquele que suporta a dor. Foi com esse sentido religioso que paixão desembarcou em português no século 13, quando era grafada como “paixon” ou “paxon”.
Em latim, uma ampliação semântica tinha se dado já nos primeiros séculos da era cristã, quando autores influentes começaram a usar ‘passio’ como traducao do grego ‘páthos’, para designar doenças do corpo e perturbações morais em geral. Mas o significado de desejo intenso, de sentimento de atração que está acima da razão, só chegaria ao português e ao inglês no século 14, por provável influência – o que não deixa de ser previsível – do francês, língua em que se começou a falar já no século 13 de ‘passion d’amour’ (sofrimento amoroso).
Coube aos falantes dos séculos seguintes dissociar gradualmente a palavra da ideia de dor, fixando-se no arrebatamento e na entrega emocional. A sombra da doença, porém, nunca abandonou por completo a paixão. O que, pensando bem, faz sentido.
Casos como o do assassinato de Marcos Matsunaga tratam de garantir que essa sombra nunca desaparecerá. 

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